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A diretora de Mobilidade Urbana da Semove, a engenheira Richele Cabral, foi uma das palestrantes da 10ª edição do Seminário Cidades Verdes, promovido pelo Instituto Onda Azul, com a parceria da Federação, dias 10 e 11 de setembro, no auditório da Firjan, no Centro do Rio. No painel que debateu o tema “As cidades precisam oferecer qualidade de vida a seus cidadãos”, no primeiro dia do evento, Richele destacou a participação do transporte público urbano para o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas.
A engenheira citou dados de uma pesquisa realizada pela Coppe/UFRJ, mostrando que o tempo gasto nos deslocamentos diários, principalmente devido aos congestionamentos, afeta a saúde de mais da metade dos cidadãos entrevistados. “Afeta o humor, o bem-estar mental, o bem-estar físico, além de prejudicar o tempo livre, as atividades sociais e a produtividade no trabalho… 73% das pessoas sentem algum tipo de mudança nesses três primeiros itens citados… O que poderia ser feito para mudar essa sensação?”.
Combo de ações
Segundo Richele, não há uma solução única, mas um “combo”. Levantamento da CNT em 2024 apontou que, para o usuário do transporte público, são necessárias medidas para qualificar o transporte público, como: o aumento da frequência dos veículos; mais segurança, devido aos riscos de assaltos; melhorias na infraestrutura; redução do tempo de espera; menor tempo de viagem; limpeza e higiene; menos congestionamento; entre outros. “Nosso ‘combo’, no entanto, envolve várias outras ações, como: priorização do transporte coletivo; qualificação da infraestrutura; gestão da operação; investimentos em tecnologia e inovação; políticas tarifárias com subsídios, cuja importância ficou ainda mais clara após a pandemia da Covid-19; governança; e sustentabilidade ambiental, no âmbito da descarbonização e da transição energética possível”, pontuou.
A diretora também falou sobre as mudanças no padrão de deslocamento, com base em dados da NTU que mostram os meios de transporte mais utilizados entre 2017 e 2024, com o ônibus perdendo espaço (caiu de 45% para 31%), as caminhadas mantendo o mesmo índice, e os automóveis, serviços de aplicativos, bicicletas e motocicletas ganhando cada vez mais a preferência das pessoas. “A gente precisa trabalhar para que os usuários voltem a usar o sistema de transporte público que, por si só, é sustentável”, defendeu.
Duas cidades exemplos
Segundo Richele, uma outra pesquisa, realizada em 21 cidades e regiões metropolitanas do Brasil, comparando 2019 com 2025 (antes e depois da pandemia), mostra que a média nacional de demanda hoje está em 83%, o que representa 17% menos pessoas transportadas do que em 2019. “Porém, quatro cidades estão acima da média nacional, sendo duas acima do que se transportava anteriormente (Goiânia e Brasília), enquanto as demais ainda continuam bem abaixo da média. O que foi feito nessas cidades que alcançaram 110% da demanda de 2019? O que faz com que as pessoas voltem para o sistema de transporte e talvez nem deixem?”, arguiu.
A resposta, de acordo com a diretora, está na lista apresentada pela NTU com 24 ações estratégicas para a recuperação da demanda, distribuídas entre seis grupos de atuação – reforço da oferta, política tarifária, regulação, planejamento, tecnologia e comunicação e infraestrutura. “Nas duas cidades que lideram a retomada da demanda e até já ultrapassaram, com larga vantagem sobre a terceira colocada, foram adotadas 11 dessas estratégias relacionadas. Portanto, não existe uma única bala de prata, uma única coisa que pode ser feita. É um conjunto de várias iniciativas”, disse.
Congestionamento verde
Richele encerrou sua palestra com a foto de um congestionamento em uma via do Rio de Janeiro, onde aparecem vários ônibus que utilizam diferentes tecnologias de baixa emissão, como hidrogênio, biodiesel, biometano, gás natural, HVO e energia elétrica. A diretora defendeu, mais uma vez, que a estratégia de adoção de veículos ambientalmente sustentáveis sozinha não é a solução, mas deve estar integrada às demais ações do “combo” da qualificação do transporte público. “Não adianta apenas investir nesses veículos e eles ficarem parados no trânsito. Estamos criando um congestionamento verde. É preciso melhorar e qualificar o sistema como um todo”, afirmou.
Também participaram da mesa: a diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), Clarisse Linke; o engenheiro e ex-dirigente da ANA, Aneel, Light, Enersul e Sabesp, Jerson Kelman; e a coordenadora do Laboratório de Transporte Sustentável da Coppe/UFRJ, Andrea Santos. A mediação ficou a cargo de Agostinho Vieira, do Colabora. Richele esteve ainda na mesa de abertura do evento. No dia seguinte, o gerente de Planejamento e Controle da Federação, Guilherme Wilson, participou do painel sobre o tema “Precisamos falar sobre a necessidade de petróleo”.
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